Contato Vip


A Revista Contato VIP circula desde 1993 na região norte do Rio Grande do Sul, sediada em Carazinho. Em 2014 foi iniciado um projeto expansão, e hoje a revista circula também em Passo Fundo, Marau e demais cidades da região norte do Estado. Há mais de 25 anos mostrando o lado bom da vida!

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4 de agosto de 2015

Entrevista – JOÃO GHENO NETTO


Dono de uma personalidade forte, tradicional dos descendentes da origem italiana, João Gheno Netto (86) dedica a sua vida a ajudar as pessoas a se tornarem responsáveis e conscientes perante Deus. Natural de Encantado RS, ele é o quarto dos onze filhos de Jacob Pedro Gheno e Adelina Baldo Gheno. Muito pequeno mudou-se com a família para São Valentim, interior de Erechim, onde cresceu e recebeu a sua ordenação em 1957 e nos dois anos seguintes trabalhou em Erechim.

Há 55 anos em Carazinho, na Igreja Matriz Nosso Senhor Bom Jesus, Gheno, que ainda guarda o sermão da sua posse por escrito, já faz parte da história do município, foi aqui onde ele, de fato, começou a sua vida como pároco. Tendo concluído todo o seu estudo com padres jesuítas, que são muito rígidos quanto às responsabilidades e disciplinas de cada um, o padre é conhecido pelos carazinhenses pela sua autenticidade. No início deste ano ele foi emérito pela Diocese, mas quem pensa que ele irá desfrutar desta “aposentadoria” a base de sombra e água fresca, está muito enganado.

 

VIP: Em que momento o senhor decidiu que seria sacerdote?

Gheno: Esta não foi uma decisão somente minha, é Deus que nos chama para os serviços, cabe a nós entendermos e aceitarmos este chamado. Eu fui criado participando da igreja e sempre gostei de ver o padre, ouvir as suas palavras e atos perante a comunidade.  Lembro que um dia, sentado a mesa, meu pai falou que se algum filho quisesse ser sacerdote a família iria ajudar. Eu chorei todas as noites de felicidade por esta atitude dele. Analfabeto até os 11 anos, comecei a estudar em uma escola que a própria comunidade onde morávamos montou, depois fui internado em um colégio de irmãs para estudar e poder mais tarde ir para o seminário.

 

VIP: Alguma vez pensou em desistir?

Gheno: Em um momento durante o seminário eu descobri que sou cego de nascença de uma vista, o que foi um choque, nunca soube que via com um olho só. Depois disso comecei a enxergar mal com a outra, então me deu uma depressão muito grande, pensava que teria que abandonar o estudo, pois sem ver não conseguiria seria sacerdote. Até que eu acabei conseguindo reestabelecer a visão do olho deste olho e superei! Atuei todos esses anos, rezando missas, lendo e dirigindo com uma vista só.

 

VIP: Como foi a sua vinda para Carazinho?

Gheno: Eu vim para Carazinho aos 30 anos sem saber nem conhecer algo sobre a cidade, o padre que cuidava da paróquia, o Cônego João Batista Sorg já estava morando no Hospital, então tive que me virar sozinho. As condições eram precárias, não havia água encanada, geladeira, maquina de escrever, nem condução, contava com a ajuda dos vizinhos e de um jipe que meus irmãos emprestaram. Aos poucos fui conseguindo melhorar a situação, construir o ginásio poliesportivo, a livraria, as capelas e reformar na igreja.

 

VIP: Como é o seu convívio com os carazinhenses?

Gheno: Sempre vivi em colônias italianas, e aqui encontrei diversas raças, e outras formas de vida comunitária, então precisei me integrar para ensinar uma religião contextualizada a este povo. Ajudei os produtores rurais, ensinei a plantar, cuidar dos animais, e, inclusive, ajudei a fundar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Trabalhei muito com os jovens e professores, dei aulas na escola Sorg, a qual a igreja doou o terreno. Procurei sempre marcar presença não só na igreja, mas na sociedade.

 

VIP: O que mudou na religião católica ao longo destes anos?

Gheno: Embora a teologia e as expressões da igreja não mudem, hoje está tudo muito relativo a respeito do enfoque politico, social e familiar. Tem muitos fatores que são um desastre, por exemplo, o que tem de mal um adolescente de 13,14 anos trabalhar e ajudar em casa? Ou então o matrimônio, que virou um eufemismo, as pessoas não querem responsabilidade, inventam união estável e outras coisas para fugir da família, que é o dá estabilidade ao ser humano. Ou seja, a religião continua igual, mas precisa se adaptar a essas mudanças que o ser humano está ocasionando e que não são boas para ninguém.

 

VIP: Como é o seu dia-a-dia?

Gheno: Em me propus a certa disciplina na minha vida pessoal. Por exemplo, nunca levantei às 8h da manhã, não aceito isso, portanto minha disciplina vai desde o acordar. Diariamente em torno de 6h vou para a igreja conversar com Jesus, faço minhas orações, rezo por mim e pelo povo. Meu pai foi assassinado e eu sigo rezando pelo homem que o matou, porque a minha caridade precisa ser maior. Tem dias que eu e Jesus meio que brigamos, peço que ele tenha paciência e fazemos as pazes. Depois de rezar eu volto para casa, tomo meu café e começo a cumprir as minhas atividades do dia.

 

VIP: O que o senhor gosta de fazer quando está em férias?

Gheno: Teve anos que não pude tirar férias, mas normalmente eu procuro ir visitar meus irmãos em Mato Grosso do Sul, gosto de ir à praia, mas tenho alergia a areia salgada, então tenho optado por ir para Piratuba, ou Iraí. Já viajei pela Europa, mas normalmente minhas viagens são curtas. Além de descansar, rever as pessoas e conhecer novos lugares, eu procuro me reencontrar. Devo revelar que sou meio esquisito. Quando viajo sozinho converso com as árvores, pedras, canto, puxo assunto com desconhecidos. É a minha forma de viver!

 

VIP: Quais são os seus planos agora que está emérito pela Diocese?

Gheno: Atualmente os jovens começam a trabalhar já pensando na aposentadoria, o que é um erro. Na verdade, aposentado pelo INSS eu estou há 33 anos, o que aconteceu é que agora eu fui emérito pela Igreja Católica. Eu continuo com as mesmas funções, mas de uma forma mais calma, já que tem outro padre responsável administrativamente pela Paróquia. Sigo fazendo batizados, enterros, visitas ao hospital e nas casas, minha rotina não mudou, eu não vou parar!



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