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ENTREVISTA: Ana Cardoso


Matérias do autor


24 de maio de 2017

Tempo de Leitura: 4 minutos

ENTREVISTA: Ana Cardoso


 

Foto: Lufe Gomes

Os seus relatos divertidos sobre a maternidade real deram vida ao livro “A Mamãe é Rock”, que convida as mães a relaxarem um pouco e se esquecerem das cobranças pela perfeição. Ana Cardoso é Jornalista, mestre em Sociologia Política, atuante em pesquisas sociológicas e grupos feministas e mãe de Anita e Aurora. Ao lado do marido, Marcos Piangers, autor do livro “O papai é pop”, Ana vive a experiência da maternidade de uma forma leve, apesar de a maternidade ser uma experiência mais pesada e por isso ser acompanhada pelo Rock. Ana tem muito a ensinar a outras mães e por isso ela é a nossa entrevistada deste mês!

Muitas mães se sentem culpadas por não serem “perfeitas”. Trabalham demais, às vezes estão muito cansadas para dar a atenção que queriam aos filhos… Como lidar com esse sentimento? Sabe que não me culpo muito? Acho que existem muitas formas de evitar esta cobrança. Dividir as tarefas com o pai é a principal delas. Uma boa ideia é tentar fazer programas junto com os filhos. De preferência que envolvam atividades físicas, artísticas ou culturais e não consumo ou eletrônicos. Esse tempo junto é precioso e constrói um vínculo que não abre margem para cobrança. O principal mesmo é a própria mãe não acreditar que só ela sabe fazer tudo, que a obrigação é toda dela, que ela é a responsável por tudo que acontece com o seu filho. Porque quando a mãe pensa assim, não tem milagre que alivie a sua rotina. Acho que quando os filhos chegam da escola, nós não devemos nem fazer xixi de porta fechada. Tenho que dar uma atenção exclusiva. Depois eles desencanam da gente, porque não estão carentes.

Ainda existe na sociedade uma cobrança infinitamente maior das mães. Muitos querem dar palpite na criação dos filhos dos outros, dizer o que é certo e o que é errado. Que ações concretas poderiam ser feitas para mudar essa mentalidade de cobrança em relação às mães? Os limites e as delegações de responsabilidade precisam partir das mães. Se nós não pedirmos ajuda nem deixarmos explícito até onde as pessoas podem opinar, nada muda. Porque os palpites querem nos controlar e então, um pouco de rebeldia se faz necessário. Toda vez que alguém me criticava por estar saindo no frio com as filhas eu devolvia: quantos filhos você teve? E quantos se criaram? Porque eu tenho essas duas e elas estão ótimas!

Quais são as piores coisas que as mães têm que enfrentar e os pais não?Privações e julgamentos. O que uma mulher grávida pode e o que um homem grávido pode fazer? Do ponto de vista do trabalho, a injustiça é brutal. Um homem com dois filhos pequenos é valorizado, é visto como alguém responsável. Uma mulher, com dois pitocos, é vista como alguém que vai faltar, só vai se preocupar com a filharada, alguém que não deve ser contratada, promovida ou valorizada.

O teu livro é um convite para as mães relaxarem, não se cobrarem tanto para serem mães perfeitas. É possível ser uma mãe “de boas”? Eu tento, com afinco. Delego sem dó. Foi assim que o papai pop nasceu, sabia? Se eu insistisse para dar todos os banhos, vestir, decidir tudo… o Marcos ainda estava no sofá vendo série e tomando cerveja. Eu prezo muito minha liberdade. Saio com amigas para almoçar, para tomar chope. Viajo, passo a semana fora sem filhos. Bem menos que ele, mas faço questão de não abrir mão desses momentos. As amigas são fundamentais na nossa vida. Abdicar das amizades por causa de casamento ou filhos é um caminho certo para a depressão.

Como criar meninas e meninos em uma época em que tantas questões sobre feminismo, empoderamento e diversidade estão em debate? Só tenho meninas e estou certa que os desafios são diferentes. Minhas filhas estão sendo preparadas para não baixar a cabeça, não aceitar serem diminuídas, não tolerar machismos. Trabalho muito com elas a sua autoestima. Uma menina segura, que gosta de si mesma é meio caminho para não sofrer abusos psicológicos no futuro. Procuramos incentivar o esforço e não os talentos ou a beleza. A beleza vai, os talentos podem ser engolidos pela preguiça. A Anita foi convidada para ser uma atleta olímpica de matemática, do projeto Poty, da UFPR. Seis meninas da sala dela (entre 20 crianças de toda a escola) receberam o convite, apenas ela aceitou. Acredito que criar meninos passe por uma desconstrução enorme também para não perpetuarmos a cultura estupro. Eles precisam respeitar as meninas. Mas também precisam ser criados com amor, empatia e sem cobranças para provar a sua masculinidade 24 horas por dia. É uma violência o que fazem com os meninos. Recomendo muito às mães de meninos que assistam a um documentário chamado The Mask You Live In, disponível no Netflix. É surpreendente.

Os filhos também têm muito a nos ensinar. O que você já aprendeu com as tuas filhas? Tanta coisa. A Anita é muito corajosa e franca. Isso me inspira a ser mais objetiva também. Se ela consegue, por que eu titubeio tanto? Na verdade, eu sei a resposta… outros tempos. Outro tipo de incentivo. Mas, não reclamo dos meus pais, fui criada com os mesmos direitos e deveres que meus dois irmãos. Nunca ouvi coisas do tipo “não pode porque você é mulher” na minha casa. Com a Aurora eu aprendo a sorrir e ser gentil. Ela acorda cantando e elogiando tudo. É lindo e inspirador demais. Poderia escrever um livro só com os ensinamentos que elas me trazem.

São muitas as mães que criam os filhos sozinhas, seja pela ausência física do pai ou pela falta de participação dele na criação. O que você diria à elas? Minha sogra certa vez me disse algo genial: é mais fácil criar um filho sozinha do que ao lado de um homem que só lhe traz dor de cabeça. Homem tem que dividir, se vai só fiscalizar se você está cuidando direito – o que eu chamo de “pai gerente”, sinceramente, é melhor que fique longe. E atenção: dividir não é ajudar.

Qual seria o presente perfeito para as mães neste dia das mães? O meu? Um dia em um spa seria maravilhoso. Mas, se nesse domingo, meus fofinhos se puxarem na cozinha e fizerem um almoço bem gostoso, eu já vou ficar bem feliz.

 

foto: Revista Donna



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