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Representatividade em forma de Cordel


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27 de março de 2024

Tempo de Leitura: 5 minutos

Representatividade em forma de Cordel


Uma disciplina extraclasse da Escola Estadual de Ensino Médio Cônego João Batista Sorg, de Carazinho, deu vida ao Projeto Antirracista – que visa debater questões etnico-raciais e compartilhar histórias de pessoas inspiradoras, que nem sempre foram bem contadas 

Nas capas dos cordéis estão nomes famosos do mundo – mas também nomes de pessoas da cidade, que poderiam muito bem ser reconhecidas pelas histórias que carregam. Os poemas acompanhados de ilustrações, escritos e criados pelos alunos da Escola Estadual de Ensino Médio Cônego João Batista Sorg, resgatam a importância da representatividade e têm se espalhado por Carazinho e região.

Mas o que levaria um grupo de estudantes do ensino médio a criar literatura de cordel sobre nomes como Angela Davis, Dandara, Ailton Krenak, Emiliano Zapata, Nina Simone? Bom, pra começar, a própria vontade dos estudantes de aprender mais sobre questões de raça, gênero e classe. A professora Bruna Anacleto conta que no segundo semestre de 2022, quando dava aula de filosofia, começou a perceber o interesse dos alunos em estudar esses temas. E então, pensando nas disciplinas eletivas do currículo do novo ensino médio, que prevê um projeto de educação das relações étnico-raciais, começou a escrever de forma voluntária um projeto para ser uma possibilidade de disciplina eletiva na escola. “Convidei os alunos que tinham interesse para participar dos encontros, que aconteceriam no contraturno de suas aulas, à tardinha, e, para minha surpresa, mais de 30 alunos estavam lá para participar”, conta. 

A demanda para os estudos foi sendo trazida pelos próprios estudantes, a partir de suas vivências. “Eles perguntavam coisas muito simples, questionando a partir de suas realidades, até mesmo sobre efetividade de direitos… Então o projeto surgiu muito mais dos próprios alunos do que de uma iniciativa minha. Eles tinham essa necessidade de se expressar, contar situações de preconceito e, principalmente, de se sentirem representados”, destaca a professora. 

O grupo de estudantes que se reuniu nesta disciplina gostava muito de desenhar e escrever – e foi daí que Bruna teve uma ideia para transformar aqueles estudos em um projeto especial. “Duas alunas começaram a se perguntar: e se a Cinderela fosse uma mulher negra? E começaram a imaginar novas situações para essa personagem. Pensei que essas histórias poderiam ser contadas em um cordel, que é uma manifestação literária muito potente, e propus que eles criassem um cordel dessa história que eles estavam imaginando. Logo já começaram a surgir outras histórias e, no início, faríamos esses cordéis somente para os nossos debates. Os alunos começaram a fazê-los também sobre outras mulheres importantes, como Malala, Maria da Penha, tudo nesse formato…”, relata Bruna. E assim, o enfoque desta primeira edição acabou sendo as mulheres. “Discutimos muito entre o grupo, especialmente com as meninas, quais eram as referências de outras mulheres que tínhamos quando éramos pequenas? E por que elas não se pareciam com a gente?”, complementa. 

O resultado dos trabalhos feitos pelos alunos foi tão lindo, que era preciso ultrapassar os muros da escola para que mais pessoas também pudessem ver essas histórias e aprender com elas – e então, surgiu a oportunidade de inscrever o projeto na Feira do Livro de Porto Alegre. “Foi a primeira vez que a gente mostrou o projeto para o público, antes mesmo de fazer o lançamento aqui na escola. Neste ano os alunos também gravaram um documentário chamado Preconceito Real, que está disponível no canal do YouTube da Escola e fizeram uma exposição de fotos sobre diversidade com os alunos da escola, para mostrar qual é a nossa cara. Assim, entramos em 2023 com o projeto organizado e ainda mais ideias”, destacou a professora. 

No ano seguinte, o grupo fez a criação do seu Instagram @projeto_antirracista. A conta homenageia uma mulher que representa a luta do projeto: Mariele Franco. Ainda, os alunos criaram o podcast “Nossa voz” – e a professora conta que tudo é feito pelos alunos. “O roteiro, a edição, as entrevistas, todo o processo de produção é feito por eles, que se doam de uma forma linda ao projeto!”. Nesta 2ª edição, os cordéis foram feitos sobre mulheres e homens que vivem as questões que seus estudos abordam e, além de nomes conhecidos do mundo, estão também nomes conhecidos da comunidade, como o do professor de capoeira Jamaica, a da Tia Ieda, que trabalha na escola, da Agatha, a primeira aluna trans da escola… ao todo foram 26 histórias! E esse era o objetivo, contar histórias que muitas vezes as pessoas não conhecem. “Também participamos de várias feiras, como o Manifesta, a Felica, fizemos uma oficina no Yacamim… para esses eventos criamos versões pequenas dos cordéis e marca-páginas para distribuir para as pessoas”, conta a professora. 

Ainda em 2023, o projeto foi escolhido como melhor projeto do Ensino Médio do Estado do Rio Grande do Sul, na 5ª Mostra Pedagógica do CPERS – sendo o 1º lugar entre 130 escolas. Para coroar todo esse trabalho, a novidade de 2024 é que neste ano tudo vai virar livro! “Com o apoio do vereador Bruno Berté e com a parceria da Editora Os Dez Melhores, de Carazinho, vamos lançar um livro reunindo todos os cordéis. Os livros serão distribuídos nas escolas da cidade, tanto o livro físico quanto o e-book. O lançamento está previsto para o dia 15 de Outubro, que também é Dia do Professor. Escolhemos essa data como uma grande homenagem, por acreditarmos demais no poder transformador da educação, especialmente a educação pública”, destaca. 

O aluno Lucas Gabriel Schtuz, do 3º ano, conta que o projeto o ajudou a identificar preconceitos e se sentir representado. “Participar do projeto pra mim é algo simplesmente diferente de todo o resto. É como se eu me sentisse representado de alguma forma, de um jeito que eu nunca me senti dentro da sociedade; é como se eu pudesse fazer a diferença pros outros que não tem a mesma representatividade, por meio dos cordéis, dos encontros e palestras que fizemos em outros espaços”, disse. 

Eduarda Pereira Lamenzon entrou no projeto aos 15 anos, na primeira edição, e hoje com 17, destaca a grande transformação que fazer parte dessas vivências trouxe para ela. “Sempre fui contra o preconceito, mas nunca tive pessoas ao meu redor que me ajudassem a lutar contra isso, então, entrar no projeto me deu a oportunidade de conseguir expressar minhas opiniões, escrever sobre elas, desenhar sobre elas e isso muda as pessoas, tanto quem está dentro do projeto quanto quem está fora”, destaca a aluna.

Neste ano, muitos dos alunos que participaram do projeto desde a primeira edição vão se formar – mas o trabalho iniciado com eles deve continuar. “Estamos convidando novos alunos para participarem, que entendam que este projeto não faz parte de nota, não aumenta a frequência, é um projeto voluntário, que demanda responsabilidade e apreço pela temática”, ressalta a professora. 

Docente Destaque

Outro reconhecimento importante que o projeto conquistou foi para a professora, que foi escolhida como Docente Destaque da rede estadual por conta do seu trabalho relacionado à educação étnico-racial. Ela acredita que ser uma mulher na educação é possibilitar diariamente que se pense muito para além da sala de aula. “Nosso trabalho, especialmente enquanto mulher na educação, não termina quando termina o nosso período, a gente constrói pontes para que nossos alunos possam ser tanto cidadãos melhores, mas especialmente seres humanos melhores. Quando a gente trabalha com educação, não estamos trabalhando simplesmente com o estudante na sala de aula, estamos trabalhando indiretamente com as famílias deles, com os lugares sociais de onde eles vêm e com os espaços que eles ocupam. Então eu acredito que esperançar essa educação, para que seja uma educação libertadora é nosso grande papel na educação. Quando a gente fala para uma criança, para um adolescente, que a gente acredita nele, a gente está acreditando inclusive num mundo melhor. Acho que ser educadora e trabalhar especialmente com essas temáticas é uma possibilidade de ‘esperançarmos’ outro mundo. Dar espaço para os alunos, dar autonomia, escutar suas histórias e suas demandas é fundamental para uma educação significativa”, finaliza a professora. 

 

Fotos: Felipe Granville



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