Uma atualização na legislação está mudando a forma como as empresas enxergam a saúde mental no ambiente de trabalho. Com a recente atualização da NR-1, os riscos psicossociais passaram a integrar oficialmente a gestão de riscos ocupacionais, reforçando que o bem-estar emocional dos colaboradores é uma responsabilidade organizacional — e não apenas individual.
Na matéria de capa da VIP Digital de junho, conversamos com a psicóloga Graziela Ribeiro, especialista em Psicologia Organizacional, que explica como fatores como sobrecarga, assédio, falta de reconhecimento e lideranças despreparadas impactam diretamente a saúde mental, a produtividade e a retenção de talentos.
Sou psicóloga com atuação voltada ao desenvolvimento humano nas organizações, especialmente nas áreas de gestão de pessoas, desenvolvimento de lideranças, saúde mental no trabalho e cultura organizacional. Ao longo da minha trajetória de mais de 15 anos na área, percebi que o ambiente de trabalho exerce um impacto profundo na qualidade de vida, no bem-estar e na saúde emocional das pessoas. Foi essa compreensão que despertou meu interesse pela Psicologia Organizacional, área que permite contribuir tanto para o crescimento das organizações quanto para a construção de ambientes mais saudáveis e humanizados.
Os riscos psicossociais são fatores relacionados à forma como o trabalho é organizado, gerenciado e vivenciado pelas pessoas. Eles incluem situações como excesso de demandas, sobrecarga, assédio, falta de apoio da liderança, baixa autonomia, conflitos interpessoais, insegurança no emprego e ausência de reconhecimento. A própria atualização da NR-1 passou a reconhecer expressamente esses fatores como riscos ocupacionais que devem ser identificados e gerenciados.

A identificação exige uma postura preventiva. Pesquisas de clima organizacional, avaliações psicossociais, indicadores de absenteísmo, turnover, afastamentos por saúde, entrevistas de desligamento e escuta ativa dos colaboradores são ferramentas importantes. Além disso, a participação dos trabalhadores no processo de identificação dos riscos é um princípio central da NR-1, pois são eles que conhecem as dificuldades e desafios reais do trabalho.
Essas organizações tendem a ignorar fatores estruturais que contribuem para o adoecimento. Quando a responsabilidade é atribuída exclusivamente ao indivíduo, perde-se a oportunidade de corrigir problemas organizacionais que afetam toda a equipe. O resultado costuma ser aumento do turnover, absenteísmo, presenteísmo, conflitos, queda de produtividade e maior exposição a riscos trabalhistas.
Embora existam características individuais que influenciem a forma como cada pessoa lida com as pressões do trabalho, o burnout é fortemente influenciado pelo contexto organizacional. Ambientes marcados por excesso de cobrança, metas inalcançáveis, jornadas prolongadas, falta de suporte e ausência de reconhecimento favorecem o esgotamento profissional. Portanto, não se trata apenas de uma questão individual, mas também de um reflexo da forma como o trabalho está estruturado.
A principal exigência é implementar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) por meio do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), contemplando todos os tipos de riscos ocupacionais, inclusive os psicossociais. O PGR deve conter, no mínimo, o Inventário de Riscos, o Plano de Ação e os critérios utilizados para avaliação dos riscos.

A grande mudança foi o reconhecimento explícito dos fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho dentro do escopo do GRO. Antes, a atenção estava muito concentrada nos riscos físicos, químicos e biológicos. Agora, fatores ligados à organização do trabalho e à saúde mental também precisam ser identificados, avaliados e gerenciados pelas empresas.
A liderança tem papel decisivo. São os gestores que influenciam a qualidade das relações, o nível de confiança, a comunicação e o suporte percebido pelas equipes. Ambientes psicologicamente seguros são aqueles onde as pessoas podem expressar opiniões, admitir erros, pedir ajuda e propor melhorias sem medo de punição ou humilhação. Isso depende diretamente das atitudes e comportamentos das lideranças.
Sem dúvida. Colaboradores que se sentem valorizados, respeitados e emocionalmente seguros apresentam maior engajamento, criatividade e comprometimento. Na prática, observamos que empresas que investem em bem-estar e qualidade das relações conseguem reduzir rotatividade, fortalecer a marca empregadora e aumentar os níveis de desempenho sustentável.
Palestras são importantes para sensibilização, mas não promovem transformação sozinhas. Mudança cultural exige ações contínuas, alinhamento entre discurso e prática, revisão de processos, capacitação de lideranças, políticas claras e acompanhamento de indicadores. A cultura muda quando a saúde mental passa a ser considerada nas decisões do dia a dia.

A Psicologia Organizacional contribui por meio do diagnóstico das condições de trabalho, da identificação de fatores de risco psicossocial, do desenvolvimento de lideranças, da mediação de conflitos e da construção de estratégias baseadas em evidências. O foco deixa de ser apenas o tratamento do adoecimento e passa a ser a promoção de ambientes saudáveis.
Os erros mais comuns são tratar o tema de forma superficial, focar apenas em ações isoladas, responsabilizar exclusivamente o trabalhador pelo autocuidado, não capacitar lideranças e não monitorar indicadores. Outro equívoco é implantar programas sem antes compreender quais são os fatores de risco existentes na própria organização.
Sim. A atualização da NR-1 representa um avanço importante porque reforça que a saúde mental é uma questão de gestão organizacional e não apenas de responsabilidade individual. A legislação sinaliza que fatores psicossociais devem ser tratados com a mesma seriedade dedicada aos demais riscos ocupacionais, promovendo uma visão mais ampla da saúde e segurança no trabalho.
O custo invisível aparece na queda de engajamento, na perda de talentos, no presenteísmo, na redução da inovação, nos conflitos interpessoais, nos afastamentos e no desgaste da reputação organizacional. Muitas vezes, esses impactos não aparecem imediatamente nos relatórios financeiros, mas comprometem a sustentabilidade do negócio no longo prazo.
De forma geral, sim. Ambientes saudáveis favorecem maior produtividade, melhor qualidade nas entregas, redução de custos relacionados ao adoecimento e maior retenção de talentos. A lucratividade não decorre apenas do cuidado com as pessoas, mas da capacidade que esse cuidado tem de fortalecer o desempenho organizacional de forma sustentável.
O primeiro passo é ouvir as pessoas. Antes de implementar qualquer programa, é fundamental compreender como os colaboradores percebem seu ambiente de trabalho, quais são os principais desafios e quais fatores podem estar impactando sua saúde mental. A partir desse diagnóstico, é possível construir ações mais efetivas, alinhadas às exigências da NR-1 e às necessidades reais da organização. Como reforça o próprio GRO, a participação dos trabalhadores é essencial para a identificação dos riscos e para a construção de uma cultura genuína de prevenção.

Graziela Ribeiro
Psicóloga Organizacional (CRP 07/19681)
Mestra em Psicologia
Especialista em Gestão de Pessoas e em Avaliação e Diagnóstico Psicológico.
Atua como Consultora de Desenvolvimento Humano e Organizacional e como
Professora e Coordenadora de Carreiras na Atitus Educação.
Contatos: (54 )99615 8442
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Fotos: Daniel Tatsch