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7 de outubro de 2019

Cheias de graça


Thai Vieira e Marina Belke tem em comum o amor pelo Stand Up Comedy – uma arte que aos poucos está ocupando o seu espaço na região. Nesta reportagem, elas compartilham como é ser mulher, subir no palco e fazer todo mundo rir

Com um microfone na mão e um texto na cabeça, elas sobem ao palco com um objetivo: divertir a sua plateia. O Stand Up Comedy é um espetáculo de humor, em que não existe um personagem. Ele é apresentado, geralmente, por uma única pessoa, que sobe ao palco com um texto original, muitas vezes inspirado pela vida cotidiana.

A Thainara Vieria, que usa somente Thai como seu nome artístico, conheceu o stand up há um ano. Sua cunhada lhe apresentou um vídeo do humorista Afonso Padilha e ela se apaixonou pelas coisas que ele falava. Meses depois, ao saber que o humorista estaria em Caxias do Sul, não pensou duas vezes e foi para lá assisti-lo. “Quando eu assisti pensei: eu sei fazer isso!”, conta. Ela se identificou com a fala de Padilha, que disse que nunca dava certo em nada na vida e que não servia para ficar sentado em um escritório. “Eu comecei a me identificar com isso porque eu sempre gostei da arte. Comecei a pesquisar o que é o stand up, a ver mais pessoas do meio e comecei a escrever… Eu trabalhava em um Hospital que estava fazendo alguns cortes de pessoal e quando ‘fui pra rua’, em outubro do mesmo ano, disse que eu iria atrás do que eu quero. Conheci o Rafael Portugal e entreguei uma carta com o meu primeiro texto e aí comecei a ser inserida na cena do stand up”, conta. Thai diz que sempre foi “abobada”. Desde criança participava de grupos de teatro e começou a desenvolver cedo o seu lado engraçado. “Eu também não gostava de ver meus amigos tristes, então estava sempre fazendo palhaçadas. Quando eu encontrei o stand up eu pensei ‘é aqui que eu vou depositar toda a minha bobagem’”, brincou.

Thai na abertura do show de Renato Albani

O produtor de Rafael abraçou a vontade de Thai, que logo começou a conhecer mais pessoas do meio até surgir a sua primeira oportunidade de se apresentar. Um amigo fez a proposta: “se você quer se apresentar, vem para São Paulo”. E ela foi. Os humoristas iniciantes têm 5 minutos para desenvolver o seu texto e fazer a plateia rir e, apesar do nervosismo desse momento, Thai subiu ao palco e lá descobriu: era aquilo que queria fazer na sua vida. Ao voltar para Passo Fundo, participou do Riso de Verão, de Márcio Meneghel, conheceu os rapazes que se apresentavam no Porão Bar e foi inserida no Da Comédia Clube, em que ficou até o mês de julho. Ela também teve a oportunidade de abrir o show do Afonso Padilha na região, fez uma participação no show do Nando Viana e recentemente abriu o show do Renato Albani. “Foram experiências enormes para mim! Fui crescendo e me conhecendo como humorista”, conta.

Assim como Thai, Marina Belke também se apaixonou pelo stand up. Ela tem 25 anos e está há 6 no Brasil, vinda da cidade de Colônia, na Alemanha, como voluntária da Leão XIII. Marina trabalha há um tempo no Porão Bar, onde teve contato com as primeiras apresentações de stand up e com o grupo Da Comédia Clube. Thai já participava das apresentações e então elas começaram a conversar. “Comecei a gostar de me envolver nessa área. Eu escutava muitos shows e comecei a tentar escrever também. A Thai me ajudava bastante, eu gravava áudios e mandava pra ela! Comecei a escrever em abril desse ano e encarei como um desafio para mim. Eu sou uma pessoa tímida, na escola e na faculdade não gosto de me apresentar. Eu pensei que não iria dar certo, que não era pra mim… Na minha primeira apresentação eu estava muito ansiosa, mas quando eu subi no palco a ansiedade sumiu e eu desci do palco já querendo subir de novo (risos). Eu me surpreendi comigo mesma e a melhor coisa é isso, ver que você consegue alcançar os seus objetivos e fazer coisas diferentes”, compartilha.  Os textos de Marina se baseiam, principalmente, nas diferenças culturais entre o Brasil e a Alemanha – e o seu português impecável, com uma pitadinha de sotaque, deixam a apresentação ainda melhor!

As mulheres ainda são minoria no stand up e, assim como em outras áreas em que as mulheres são minoria, os motivos para isso são os mesmos: a insegurança, a falta de incentivo, a falta de apoio, os pré-julgamentos… Thai conta que quando começou a escrever seus textos cuidava muito o que iria falar, pois sentia que o julgamento do público poderia ser mais duro por ela ser mulher. “O povo aceita mais o homem falando abertamente. Por ser mulher eu sinto que dependendo do que eu vou falar eu tenho que corrigir a palavra que eu vou usar. No início eu pensava ‘não vou falar isso porque posso agredir alguém’, mas depois fui percebendo que as coisas que eu queria falar faziam parte da minha realidade. Então, por que eu iria agredir alguém se é uma realidade que eu vivo? Os meus textos são baseados na minha vida, nas coisas que acontecem comigo… e fiquei pensando, por que eu estava me privando e deixando de dizer algo se eu busco tanto os meus direitos?! Deus deu voz e boca para todo mundo falar então a gente tem que subir no palco e falar o que a gente pensa”, comenta.

Marina em apresentação no aniversário de um ano da Lídera PF

Marina também acredita que as meninas são mais tímidas para se arriscarem em uma arte como o stand up. “Devem ter muitas outras gurias com capacidade para fazer e que não sabem por onde começar ou com quem falar… Mas sempre que tivermos uma vontade ou um interesse de experimentar, de fazer algo diferente, temos que ir atrás porque independente se as pessoas julgam que isso seja certo ou não nós sabemos melhor quem nós somos e o que queremos. Nós também estamos sempre disponíveis para conversar com quem quer se arriscar no stand up”, avisa Marina.

Ver a vida de forma mais leve

A Thai tem um texto que fala sobre o bullying que ela sofria na escola – que na época nem era chamado de bullying. “Eu era magra, dentuça, tinha um cabelo comprido e era muito esquisita. Isso me machucava na infância porque eu gostava dos meninos e eles não gostavam de mim (risos), porque eu não era o padrão de beleza que eles procuravam. Eu levei isso pro palco, para que o pessoal entendesse que você tem que ser feliz, uma hora a vida dá uma ajeitada. E esse é o stand up que eu levo pro palco: você tem que rir, se aceitar e não problematizar. Assim como eu dou risada dos meus problemas as pessoas também podem transformar os problemas delas em risada”, destaca. Thai encontrou no stand up uma forma de levar conforto para as pessoas e de transformar situações constrangedoras ou tristes em uma coisa boa. Isso fez com que ela criasse uma página no Facebook, que leva o nome de Projeto Sorriso, para que as pessoas enviem suas histórias. “Eu acredito que a comédia também salva vidas, porque você dá voz ao problema do outro e vai se resolvendo. Eu estou agora trabalhando em um texto sobre a morte do meu irmão, algo que me machucou bastante e que sei que machuca muitas pessoas. Eu quero transformar essa dor em um texto para que as pessoas percebam que você não precisa viver no sofrimento. As pessoas partem e nós temos que ficar e tocar nossas vidas”, diz.

Com Marina não é diferente. Os amigos dela costumam dizer que ela é um imã para coisas estranhas. E sempre que ela compartilha o que acontece com ela, as pessoas dizem que ela precisa colocar as histórias em suas apresentações – e é isso que ela faz! “Usamos muitas coisas que acontecem na nossa vida como base para os textos, mas exageramos um pouco para criar uma história mais interessante”, brinca.

Thai no Show O Grito da Comédia, em São Paulo

O futuro na comédia

Para Thai, estar no palco é o que dá mais energia à sua vida. E ela já decidiu: quer viver disso. “Quando as coisas começam a acontecer você não quer mais parar! Eu não me vejo em nenhum outro lugar que não seja o palco, não me vejo trabalhando com nada diferente da arte”, ressalta.  O stand up já faz parte da Thai, que vem tendo o apoio de toda a família para seguir atrás dos seus sonhos. Além de se dedicar aos textos, as viagens e apresentações, ela também comanda um projeto na escola municipal Santo Antônio, na Vila Ricci, em Passo Fundo, onde dá aulas de teatro as quintas e sextas-feiras, para alunos do 5º, 7º e 8º ano. “É um trabalho gratuito, que faço com o intuito de tirar as crianças da rua e inseri-las na arte”, conta.

Marina está prestes a se formar em psicologia, área pela qual é apaixonada e em que pretende iniciar sua carreira. Para ela, o stand up é um lazer desafiador, para o qual ela quer se dedicar o quanto puder. “Não sei até quando vou crescer no stand up, mas é muito bom estar no meio, conhecer gente nova, que compartilha os mesmos interesses… Eu aprendo muito com todos! Independente de qual é o objetivo final, se é fazer do stand up uma carreira ou um hobby, sempre vou muito preparada para o palco. O stand up é uma arte na qual investimos muita energia, tempo e amor!”, ressalta.

Na região o stand up ainda é uma arte em crescimento, pois ainda são poucos os locais que abrem espaço para shows. Thai, por exemplo, teve a sua primeira oportunidade de apresentação em São Paulo, mas acredita que o stand up tem tudo o que precisa para crescer aqui. “As pessoas precisam estar mais abertas a conhecerem o que é e a não fazer o pré-julgamento. A cidade deveria abrir o coração e ver que o stand up não é uma ‘bobagem’, é uma arte que cura almas! Quanto mais gente apoiar, mais essa arte vai crescer aqui e mais pessoas vão voltar os olhos para Passo Fundo. Vemos que muitas pessoas que fazem arte tem que sair da cidade para buscar oportunidades, mas podemos abraçar quem faz isso aqui e ajudar a crescer. As pessoas tendem a ter um certo preconceito com o que elas não conhecem, mas esperamos que o stand up cresça e que muitas pessoas se interessem por essa arte”, finalizam Thai e Marina.



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